A
palavra daïmon,
da qual fizeram o termo demônio, não era, na Antiguidade,
tomada à má parte, como nos tempos modernos. Não designava
exclusivamente seres malfazejos, mas todos os Espíritos, em geral,
dentre
os quais se destacavam os Espíritos superiores, chamados deuses,
e os menos
elevados, ou demônios propriamente ditos, que comunicavam diretamente
com os homens. Também o Espiritismo diz que os Espíritos povoam
o Espaço; que Deus só se comunica com os homens por intermédio
dos
Espíritos puros, que são os incumbidos de Lhe transmitir as
vontades; que
os Espíritos se comunicam com eles durante a vigília e durante o
sono.
Ponde,
em lugar da palavra demônio,
a palavra Espírito
e tereis a Doutrina Espírita;
ponde a palavra anjo
e tereis a doutrina cristã.
VII.
A preocupação constante do filósofo (tal
como o compreendiam Sócrates e Platão)
é a de tomar o maior cuidado com a alma, menos pelo que respeita a
esta vida,
que não dura mais que um instante, do que tendo em vista a
eternidade.
Desde
que a alma é imortal, não será prudente viver visando à
eternidade?
O
Cristianismo e o Espiritismo ensinam a mesma coisa.
VIII.
Se a alma é imaterial, tem de passar, após essa vida, a um mundo
igualmente invisível
e imaterial, do mesmo modo que o corpo, decompondo-se, volta à matéria.
Muito importa, no entanto, distinguir bem a alma pura,
verdadeiramente imaterial,
que se alimente, como Deus, de ciência e pensamentos, da alma mais
ou menos
maculada de impurezas materiais, que a impedem de elevar-se para o
divino
e
a retêm nos lugares da sua estada na Terra.
Sócrates
e Platão, como se vê, compreendiam perfeitamente os diferentes
graus de desmaterialização da alma. Insistem na diversidade de
situação
que resulta para elas da sua maior
ou menor
pureza. O que eles diziam,
por intuição, o Espiritismo o prova com os inúmeros exemplos que
nos põe sob as vistas. (O
céu e o inferno,
2a Parte.)
IX.
Se a morte fosse a dissolução completa do homem, muito ganhariam
com a morte
os maus, pois se veriam livres, ao mesmo tempo, do corpo, da alma e
dos
vícios.
Aquele que guarnecer a alma, não de ornatos estranhos, mas com os
que lhe
são próprios, só esse poderá aguardar tranquilamente a hora da
sua partida
para
o outro mundo.
Equivale
isso a dizer que o materialismo, com o proclamar para depois
da morte o nada, anula toda responsabilidade moral ulterior, sendo,
conseguintemente,
um incentivo para o mal; que o mau tem tudo a ganhar do
nada.''
‘’Somente
o homem que se despojou dos vícios e se enriqueceu de
virtudes,
pode esperar com tranquilidade o despertar na outra vida. Por
meio
de exemplos, que todos os dias nos apresenta, o Espiritismo mostra
quão
penoso é, para o mau, o passar desta à outra vida, a entrada na
vida
futura.’’
(do livro, ‘’O
céu e o inferno’’,
2a Parte, cap. I.)
X.
O corpo conserva bem impressos os vestígios dos cuidados de que foi
objeto e
dos
acidentes que sofreu.
Dá-se o mesmo com a alma. Quando despida do
corpo,
ela
guarda, evidentes, os traços do seu caráter, de suas afeições e
as marcas que lhe
deixaram
todos os atos de sua vida. Assim, a maior desgraça que pode
acontecer
ao
homem é ir para o outro mundo com a alma carregada de crimes. Vês,
Cálicles,
que
nem tu, nem Pólux, nem Górgias podereis provar que devamos levar
outra vida
que nos seja útil quando estejamos do outro lado.
Depara-se-nos
aqui outro ponto capital, confirmado hoje pela experiência:
o de que a alma não depurada conserva as ideias, as tendências, o
caráter
e as paixões que teve na Terra. Não é inteiramente cristã esta
máxima:
mais
vale receber do que cometer uma injustiça?
O mesmo pensamento exprimiu
Jesus, usando desta figura: “Se alguém vos bater numa face, apresentai-lhe
a outra.” (Cap. XII, itens 7 e 8.) XI.


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